segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Eutanásia

Hoje o assunto é outro.. Mais fechado, mais triste, mais perdido. Afinal o que significa isto? Para que nos apegamos tanto aos outros quando sabemos um dia perde-los. EU! Logo eu, que sempre fui contra a eutanásia, ou então apresentava muitas reservas, talvez por não saber como é o real funcionamento, por que princípios se rege, o que está subjacente a esta prática, o que leva as pessoas a procura-la, porque? Continuo a procurar respostas.. Continuo a pensar porque? Porque segui aquele caminho, naquele dia? Porque? Sei que dentro de mim, aquela opção era viável, aliás a única, mas não deixo de tocar neste assunto com imensa mágoa e tristeza.
Passaram 5 meses, desde que optei por quem não podia optar. Desde que chorei e sofri imenso aquele dia, aquela hora. Para quem não percebeu este inicio, eu quando era pequena tinha medo de cães, e posso dizer que esse medo perdurou mesmo quando vi pela primeira vez aquele cachorro bebé no chão da minha cozinha, pêlo dourado e umas orelhas enormes que caiam na comida e roçavam o chão. Foi uma adaptação complicada, e só comecei a gostar daquela presença quando percebi que dependia tanto de mim, como a minha vida passou a ter um novo companheiro, um amigo na verdade, que me esperava sempre feliz por me ver, que serviu de almofada para os meus desabafos que me dava beijos (lambidelas) para eu ficar feliz e mesmo quando estava triste não saia do meu lado. Contigo aqui sentia-me segura, eu e todos os que aqui residem, incluindo vizinhos, sabíamos que fosse que hora fosse darias sinal de tudo o que fosse diferente, novo, perigoso...Fui eu que escolhi o teu nome, carinhosamente escolhido e elaborado na altura por uma combinação de algo relacionado com os Pokémons, o teu nome - Nayo Bayo, foi um nome que ficará com certeza na cabeça e sem dúvida no coração. Tenho tantos momentos guardados na memória, em que tu foste o protagonista. Gostava do teu jeito carinhoso com crianças, gostava de te ver a correr, gostava de ti e tudo o que isso envolvia. Esquecemos que tudo na vida começa e um dia acaba, mas quem amamos é diferente, não estamos nunca preparados, achamos que é para sempre, que é eterno. Mas não!!
Amei todos este anos, foram 14 anos de pura cumplicidade, de amor, de carinho, de brincadeira. Descobri o que significa um amor diferente, ter alguém que não fala a nossa língua mas que nos entende, que percebe quando estamos bem e vice-versa. Se me perguntarem eras tu e nunca ninguém vai ocupar esse lugar.
Podia escrever milhares de linhas destes anos todos. Eras o meu amigo de 4 patas, eras o meu companheiro, eras por vezes um filho e por vezes um irmão. Queria um recomeço, teria de certeza aproveitado mais a tua companhia, teria com certeza ido contigo passear mais vezes, teria-te levado a mais lados, teria deixado que tivesses descendentes e ficaria feliz, ainda mais feliz. E eras tu,só tu.
Envelheces-te depressa demais, não estava preparada. Não sabia que a tua velhice também fazia parte da minha vida, que ficaria a viver em função de ti e do teu bem estar. Não me arrependo! Deixei coisas para fazer para te levar ao veterinário, deixei para te pegar ao colo, deixei para te levantar, fiz e faria tudo de novo. Quando me disseram pela primeira vez que não havia muito a fazer, chorei, mas tu recuperaste e voltas-te para casa mais forte, mas o tempo e a idade fizeram com que perdesses a tua vida alegre, as tuas corridas, tornaste-te dependente de nós para tudo. Quando as dores eram insuportáveis para ti e para nós, foram dois longos dias de sofrimento. Tomámos uma decisão, não queríamos que sofresses mais. Naquele dia não dormi e tu também não. Não vou guardar os maus momentos ou os momentos tristes. Apenas posso me lembrar que naquele dia te levantas-te momentos antes de ires embora, coisa que já ninguém imaginava e deste as tua últimas lambidelas na minha mão. Estavas doente e não por falta de cuidados mas sim por velhice e desgaste normal da idade. Foi a decisão mais difícil que tive que tomar até aos dias de hoje. Mas também sei que não queria sofrer mais e nem te deixar sofrer. Como ouvi naquele dia "Nunca é o momento certo, para nada."! Hoje sei que aquele momento foi o certo, outros teriam optado por este caminho a mais tempo, a mais anos até. Podia tentar mais uns dias mas era como o nome indica dias, para sofrermos mais? Não! Aquele foi o dia, aquele foi o momento e pronto. Só passado 5 meses consigo tocar no assunto, sem me deixar levar por sentimentos e emoções mais frágeis. Hoje sei o que é, um amor incondicional! Amo-te e por te amar não te deixei sofrer.
A minha opinião mudou bastante depois de ter que passar por este caminho. Hoje sei que a eutanásia é uma opção, sim uma opção, para quem sofre, para quem não têm qualidade de vida e principalmente para quem está apagado (ligado as máquinas, sem noção.....), sei agora que é uma opção diferente daquela que anteriormente defendia. Foi a minha escolha, a nossa escolha. Eu não queria sofrer mais, não te queria ver sofrer mais. Para quem pergunta a resposta é simples, vale a pena sofrer?? Quando sabemos que não a mais nada a fazer, que apenas se tornou numa presença, que vive dos nossos cuidados, que não têm qualquer autonomia, que sofre e chora com dores, a pergunta é simples: vale a pena? Quando amamos temos que saber desprender, temos que amar na presença e também na ausência, para mim eras tu, o meu companheiro mas a máxima vale para outras situações. Amar é dar liberdade, para ir e para ficar. Isso sim, é amar alguém, é saber quando chega mas continuar a amar. Um amor diferente, um amor muito, muito especial. Foste, és e para mim sempre serás, o meu grande companheiro, meu Nayo Bayo - (Pipo, Arroz, Robe e Frangocha) :')

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